Dois hospitais ligados à Unicamp estão entre os 100 melhores do país

09/01/2026

O Hospital de Clínicas (HC) e o Hospital Estadual Sumaré (HES), ambos geridos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estão entre os 100 melhores hospitais públicos do Brasil. O levantamento foi realizado pelo Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross) em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o Instituto Ética Saúde (IES), o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). 
 
De acordo com o Ibross, o ranking considera apenas hospitais federais, estaduais ou municipais com gestão integral pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem participação de planos de saúde. Foram elegíveis hospitais gerais e especializados com mais de 50 leitos e produção registrada no Sistema de Informações Hospitalares do Ministério da Saúde entre agosto de 2024 e julho de 2025. Hospitais psiquiátricos e de longa permanência não foram incluídos no levantamento. 
 
Em maio, será divulgada a relação dos 10 melhores hospitais do Brasil, a partir dessa relação dos 100 melhores. Entre os critérios adotados para a seleção dos 100 finalistas estão a acreditação hospitalar, taxas de ocupação, indicadores de mortalidade, disponibilidade de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e tempo médio de internação. 
 
“Sem dúvida alguma, a administração do Hospital Estadual Sumaré vem sendo muito bem conduzida ao longo dos últimos anos. A Funcamp tem agora o papel de seguir aprimorando esse trabalho e avançando na qualificação do atendimento, sempre com foco em eficiência, cuidado e humanização”, afirmou o diretor-executivo da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp), professor Orival Andries Junior. 
 
Para a superintendente do HC, Elaine Cristina de Ataide, o destaque é resultado direto de uma combinação entre assistência altamente especializada, gestão profissionalizada e o compromisso público com o Sistema Único de Saúde (SUS). “Ficamos mais motivados cada vez que nós aparecemos em um ranking como esse. É a confirmação de que o trabalho que vem sendo feito está dando resultado e sendo reconhecido para além da nossa população”, afirmou. Segundo ela, pesquisas internas indicam que mais de 85% dos usuários avaliam positivamente o atendimento prestado pelo hospital.
 
Para Elaine, o avanço do HC nos rankings não se explica apenas por investimento financeiro. Um dos pilares da atual gestão é a adoção de indicadores, protocolos e planejamento estratégico em todas as áreas do hospital. “Nunca o problema inicial de uma unidade do SUS é só dinheiro. É preciso organizar processos, criar indicadores e parar de apagar incêndios”, destacou. Cada setor passou a construir seus próprios indicadores de desempenho, que são avaliados coletivamente em reuniões mensais. A proposta, segundo ela, é criar uma cultura institucional orientada à melhoria contínua.
 
O HC atende pacientes de pelo menos três Departamentos Regionais de Saúde (DRS) e tem compromisso assistencial com uma população estimada em mais de 6 milhões de habitantes. Em procedimentos de altíssima complexidade, o hospital é, muitas vezes, a única alternativa disponível pelo SUS. É o caso, por exemplo, da aspiração de trombo em pacientes com acidente vascular cerebral (AVC), procedimento realizado por apenas 14 hospitais credenciados no Brasil. “Somos um hospital eminentemente SUS. Não atendemos convênios. Muitos dos tratamentos que realizamos seriam inacessíveis para a população se não fosse o sistema público”, destacou a gestora.
 
A instituição também é referência em oncologia, transplantes, farmácia de alto custo e atendimentos que exigem equipes altamente especializadas. De acordo com a superintendente, no caso do câncer, o HC é o único Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) da região, responsável por todas as etapas do cuidado ao paciente oncológico, incluindo tratamentos de linhas mais avançadas.
 
Prestes a completar 40 anos, o HC mantém praticamente o mesmo número de leitos desde sua inauguração, cerca de 413, número considerado insuficiente diante da demanda atual. “Somos o menor hospital de alta complexidade em relação à população atendida no Estado. Existem hospitais com mil leitos para dois milhões de habitantes, enquanto nós temos pouco mais de 400 leitos para seis milhões”, comparou a superintendente.
 
A situação causa impacto direto nas filas de espera, especialmente em áreas sensíveis como a oncologia. Mutirões realizados em parceria com o Departamento Regional de Saúde (DRS-7) conseguiram reduzir temporariamente a demanda, mas, segundo a gestora, o problema é estrutural. “Oncologia não pode esperar. Muitas vezes o paciente piora ou morre enquanto aguarda atendimento e, infelizmente, temos muitos pacientes à espera de um tratamento”, alertou.
 
Para Elaine, os atuais problemas podem ser amenizados e, até mesmo resolvidos, através do processo de autarquização da área da Saúde da Unicamp, processo que aguarda aprovação da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Diferentemente de outros hospitais universitários paulistas, o HC da Unicamp não é uma autarquia direta do Estado, o que, segundo ela, dificulta o recebimento de recursos da chamada Tabela SUS Paulista. “É importante destacar que a autarquização não tem absolutamente nada a ver com privatização, é um processo de qualificação da receita”, reforçou a superintendente. Segundo ela, a mudança permitiria maior autonomia administrativa e financeira.
 
ATENDIMENTOS
 
Aos 69 anos, o aposentado Leonildo Sirianni, morador de Santa Bárbara d’Oeste, descobriu que um nódulo no fígado, antes estável, crescera rapidamente. Em poucos meses, passou de um para 11 centímetros. Encaminhado ao HC, ele foi submetido a uma cirurgia de grande porte para retirar cerca de meio quilo do órgão. O procedimento ocorreu em novembro de 2025 e foi considerado bem-sucedido tanto pelo corpo clínico quanto pelo próprio paciente. “O atendimento foi excelente. Fiquei dois dias na UTI, depois no quarto, sempre acompanhado. Os médicos vinham conversar comigo e com a minha família todos os dias”, relatou. Mesmo diante da gravidade do caso, ele afirmou que se sentiu seguro durante todo o processo. “A gente percebe quando o atendimento é feito de forma mais humana. Agora é acompanhamento.”
 
Histórias como a dele ajudam a explicar o motivo de o hospital se tornar referência em cirurgias hepáticas e transplantes. Segundo a cirurgiã do aparelho digestivo Simone Perales, que atua há dez anos no HC, o serviço de transplante de fígado da Unicamp é um dos mais tradicionais do interior paulista, ativo desde 1991. “São poucos lugares no país que fazem esse tipo de cirurgia pelo SUS. Para nós, é gratificante poder oferecer esse tratamento a quem não teria acesso de outra forma.” 
 
“O HC é referência em cirurgia do trauma. Recebemos vítimas de acidentes graves, especialmente motociclistas, além de atendimentos trazidos pelo helicóptero Águia, que na região é o único hospital para o pouso dele é aqui”, explicou. Segundo ele, a expansão da estrutura, através do processo de autarquização, é urgente para acompanhar o crescimento da demanda, especialmente em leitos de UTI e centros cirúrgicos.
 
Na oftalmologia, a pressão também é constante. O médico Olavo Wolf, de 28 anos, que está em especialização em retina, lembrou que o HC é um dos poucos serviços públicos capazes de realizar cirurgias complexas nessa área. “A gente atende cerca de 50 pacientes por dia apenas na urgência. É pesado, mas necessário. Se não houver um centro como esse, muita gente vai perder a visão.”
 
Entre os pacientes, mesmo naqueles que reconhecem a superlotação, o discurso se repete: o cuidado humano faz a diferença. O motorista de ônibus escolar Alfredo de Abreu, de 58 anos, morador de Campinas, passou por uma cirurgia de descolamento de retina no final do ano passado. “Cheguei no pronto-socorro e fui atendido rapidamente. A cirurgia foi um sucesso. Aqui você percebe que sempre tem um professor acompanhando o aluno. Isso dá segurança”, contou.
 
A auxiliar de limpeza Ana Paula da Silva, de 65 anos, de Atibaia, também destacou a postura da equipe durante o tratamento oftalmológico. “A ansiedade que eu senti não foi de medo, foi de felicidade. Pela calma do médico, pelo jeito que a enfermagem trata a gente. Você sente que está sendo bem-cuidada”, contou. A única crítica foi com relação às filas para o retorno dos exames. Mesmo assim, ela avaliou o atendimento como positivo. “É só ter um pouco de paciência para chega. Depois dessa etapa, o acolhimento é muito bom.”
 
 
 
Fonte: Correio Popular
 

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