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Mauro Daffre comenta NR 32 e os benefícios da Norma

Veja a entrevista exclusiva de Mauro Daffre, diretor da CIESP e da Associação Brasileira para Prevenção de Acidentes (ABPA), sobre os benefícios da NR 32 (Norma Regulamentadora 32) para os profissionais da saúde, usuários, empresários e governo. A Norma deverá ir para apreciação do CTPP em setembro deste ano.

Site Federação - Como diretor da CIESP e da Associação Brasileira para a Prevenção de Acidentes, como você avalia que a NR-32 é um bom negócio? Para quem?

A NR 32 - Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde - é um bom negócio para todos, pois ela vai tirar o setor de saúde do lugar de 1º do Ranking de acidentes de trabalho. O último dado do Ministério do Trabalho de 2.003 mostra que ocorreram 23.108 notificações, superando até mesmo o setor da construção civil. Bom negócio também para os trabalhadores, que terão um ambiente de trabalho mais saudável e seguro; para os empregadores que não sentirão no bolso os custos das ações trabalhistas, previdenciárias e absenteísmo; e até mesmo para o governo, que poderá reduzir o número de concessões de benefícios por acidentes de trabalho. É importante lembrar que essa é a primeira norma regulamentadora trabalhista, no Brasil e no mundo, voltada especificamente à área da saúde. Ela estabelece diretrizes básicas para a implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores na área da saúde. Não existe nada semelhante no mundo, o que existe são ações isoladas, como na comunidade Européia e no Estados Unidos, onde há leis específicas para riscos biológicos, químicos entre outros. As perspectivas são de que o texto da norma se concretize agora em agosto, seja apreciada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em setembro e que a sua publicação aconteça em novembro deste ano. A nova norma englobará hospitais, clínicas a laboratórios, que terão de rever muitos dos seus processos a fim de melhorá-los. A NR 32 trata de questões fundamentais à saúde da sociedade, dos profissionais deste setor e até mesmo da saúde financeira dessas instituições. Entre os pontos mais relevantes da norma estão questões como o tratamento adequado de resíduos, como amenizar os riscos biológicos, a necessidade de dispositivos de segurança e capacitação profissional, os problemas do reuso de materiais de uso único, entre outros.

Investir em segurança dá retorno financeiro? Você poderia exemplificar com alguns números?

O economista José Pastore, que realiza muitos estudos nesse sentido, defende, pautado matematicamente, que para cada R$1 investido em segurança e saúde, a empresa pode ter economia de R$4. O custo - beneficio de investir em segurança e saúde sempre resultará em um retorno maior e positivo. Isso porque um trabalhador atuando em um ambiente que tem entre suas práticas capacitar constantemente seus profissionais, desenvolver ações de qualidade de vida e ainda oferecer uma infra-estrutura segura se sentirá motivado e comprometido. O empregador, por sua vez, terá em troca uma equipe saudável, produtiva e ainda poderá evitar dores de cabeça com as ações trabalhistas, previdenciárias e até penais.

Há algum levantamento de quanto prejuízo os acidentes de trabalho dão na área médica (ou, se não, em outras áreas)?

Sabe-se hoje, segundo dado oficial do Ministério da Previdência Social, que o Brasil chega a gastar em média de 8,2 bilhões ao ano com benefícios acidentários e aposentadoria especial. O custo disso para o país equivale a 32,8 bilhões de reais. Isso sem contar as subnotificações, que certamente, se tivéssemos como mensurar, nos daria números bem mais alarmantes. No 3º Encontro Nacional TSPV - "Trabalhador Saudável - Paciente Vivo" realizado no Rio de Janeiro a Dra. Cristiane Raparini citou em sua apresentação o exemplo do custo de tratamento previsto em U$ 629.000, de profissional da equipe de limpeza do estado da Carolina do Sul, USA, acidentado por uma agulha no lixo.

A aprovação da NR32 e sua colocação em prática (com a ameaça de multas para quem não cumprir e os descontos para quem o fizer) será o suficiente para convencer os hospitais a investirem em segurança?

Ela, certamente, terá uma grande participação nisso. Mas nesse ponto, devo lembrar de algo extremamente importante para o empresariado. O Ministério da Previdência Social prepara-se para lançar este ano uma nova legislação sobre o Seguro de Acidente de Trabalho (SAT). A nova política proposta para o SAT prevê distribuição mais justa de tributação entre os setores de atividade econômica e o desempenho individual das empresas. Conforme a atuação de cada empresa, as alíquotas básicas do SAT de 1%, 2% e 3% poderão sofrer redução de até 50% ou aumento de até 100%. Em linhas gerais, quem acidentar menos pagará menos, e, quem acidentar mais pagará mais, o que certamente influenciará nos custos e na competitividade das empresas. A nova proposta tem o objetivo de servir de estimulo no decréscimo mais rápido dos números e custos dos acidentes. Um detalhe relevante é que essa nova política se baseará na CID e não no CAT, que sofre com os problemas de sub-notificações.

As empresas que oferecem produtos de segurança ou mais seguros farão algum tipo de ação em prol da NR32, quer seja em forma de marketing, ações de convencimento ou até mesmo descontos para quem adquirir estes produtos?

A NR 32, analisada sob o aspecto mercadológico, criará grande demanda de vários produtos para os fornecedores dos estabelecimentos de saúde, visto que este setor de assistência à saúde está ainda muito atrasado em termos de "cultura de segurança" frente outros setores da atividade econômica. Isto pode ser comprovado por ser o 1º no ranking de acidentes. Como a informação e a capacitação tanto de empregadores e trabalhadores é precária, certamente as empresas interessadas neste nicho de mercado atuarão fortemente no marketing educativo e ações que demonstrem que são tantos os benefícios que os empregadores não considerarão estes custos despesas, mas sim investimentos. A aumento da demanda destes produtos baixará custos, e muito deles que hoje são importados passarão a ser fabricados internamente, gerando novos empregos e até exportação desses produtos. Isto já vem ocorrendo, tanto que os 3 Encontros TSPV "Trabalhador Saudável - Paciente Vivo" realizados contou com vários patrocinadores que têm esta visão de futuro.

Na sua opinião, a solução para reduzir ao mínimo o número de acidentes de trabalho passa mais pelo empregador ou pelo empregado? E qual o papel da sociedade nisso tudo?

Na verdade acho que é uma via de mão dupla. Primeiro é preciso que os empregadores compreendam a importância e o diferencial de ser socialmente responsável, ter iniciativas, políticas e ações que visem à saúde e segurança do trabalhador. Segundo é preciso que o trabalhador também tenha essa consciência e passe a exigi-la. De nada adianta uma empresa adotar um Sistema de Gestão de Segurança, Saúde e Meio Ambiente, Dispositivos de Segurança para Perfurocortante, EPI's, como luvas, mascara respiratórias, por exemplo, e os funcionários não se comprometerem com o sistema e não usarem o que lhe é fornecido para sua proteção pessoal. Depois, quando falamos em sociedade, ela é o termômetro de tudo isso. Hoje em dia os consumidores estão cada vez mais conscientes e sensíveis as questões sociais. Eles sabem muito bem das responsabilidades das empresas e exigem isso. Ele mostra que tem voz e influência uma vez que deixa de comprar um produto porque sabe que a empresa X usa mão-de-obra infantil, tem um alto índice de acidentes, et cetera. Ainda existe o caso dos boicotes, quando este mesmo consumidor se recusa a ir ou usar os serviços de um determinado estabelecimento de saúde por saber que ali a sua segurança, e também das pessoas que estão ali para atendê-lo, está em risco entre outras coisas.

Qual é a solução - se é que existe uma - para zerar totalmente os acidentes de trabalho no Brasil?

Conscientização, Educação, Prevenção, enfim, "Cultura de Segurança" são palavras-chave para isso. A classe patronal deve ter a iniciativa de buscar soluções adequadas a sua realidade; o trabalhador também tem que contribuir com essas soluções. Depois disso, é claro, vem o papel do governo. Acho que, a criação da nova metodologia do SAT representa um grande passo nesse sentido. O empregador também quer sentir que não está sendo engolido pelo governo com suas altas e injustas tributações.