Handar
fala sobre o Dia da Prevenção de Acidentes
no Trabalho

Em
27 de Julho o Brasil comemora, anualmente, o Dia da Prevenção
aos Acidentes no Trabalho, data que tem como objetivo chamar
a atenção de toda a sociedade para um problema que atinge
praticamente todas as áreas e profissões do país - entre
as quais, infelizmente, a área da saúde se destaca. O médico
do Trabalho e Sanitarista Zuher Handar foi um dos responsáveis
pela instituição do Dia da Prevenção aos Acidentes no Trabalho.
Em entrevista exclusiva ao Site da Federação dos Trabalhadores
da Saúde, Handar - que atualmente acumula os cargos de Médico
da Secretaria de Saúde do Paraná, Professor de Medicina
Preventiva e do Trabalho da Faculdade Evangélica do Paraná
e Consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT)
para a área de Segurança e Saúde no Trabalho - fala sobre
a importância da data, suas expectativas em relação à NR-32
e a situação do trabalhador da saúde nos dias de hoje.
Site
Federação - O senhor é apontado como uma das
pessoas que mais lutou para que fosse instituído o dia da
prevenção dos acidentes de trabalho. Comente um pouco sobre
a luta e sobre a importância da instituição desta data para
os trabalhadores da saúde e para a população.
Primeiramente quero cumprimentar a todos aqueles que lutam
por melhores condições e ambientes de trabalho, em prol
da redução de acidentes que atualmente tem trazido tanta
dor e sofrimento a tantos trabalhadores. Gostaria muito
que este dia fosse celebrado e lembrado em todos os dias
do ano. Que todos aqueles que tem alguma responsabilidade
por melhor qualidade de vida para o trabalhador tivessem
a sensibilidade e o compromisso de sempre oferecer trabalho
e emprego decente, tanto na ótica da relação de emprego
e trabalho como na ótica da segurança e saúde do trabalhador.
É
importante, nesta data, lembrar de tantos trabalhadores
que se acidentaram, adoeceram ou perderam a vida procurando
desenvolver as suas atividades laborais, mas também lembrar
dos que foram "salvos" por interferência de profissionais
capacitados, sérios e éticos que vem lutando por melhores
condições de vida para os trabalhadores também no seu ambiente
de trabalho.
Creio que devemos dedicar este dia e todos aos trabalhadores
que lutam por seu trabalho digno e, como já disse, decente.
Por todos os trabalhadores e profissionais que no seu dia
a dia procuram construir um patamar de segurança no trabalho
mais seguro e que procuram ainda lutar por melhores níveis
de saúde de toda população.
Creio
que a importância deste dia está na responsabilidade de
todos os atores sociais do mundo do trabalho em reafirmara
o seu compromisso em continuar melhorando as condições de
trabalho com o objetivo de diminuir, cada vez mais, os riscos
nos ambientes de trabalho e, conseqüentemente, o número
de acidentes, doenças e mortes de tantos seres humanos.A
Responsabilidade Social é de todos nós, mas principalmente
do empregador em oferecer trabalho e emprego mais digno
e decente.
O
que o senhor acha da
NR-32 e sua importância?
Tenho ainda a lembrança de quando ocupava o cargo de Secretário
de Segurança e Saúde no Ministério dó Trabalho e Emprego,
em uma de minhas visitas a Campinas, participando de um
evento do setor saúde, foi-me entregue uma solicitação de
construirmos uma norma específica para o Setor, que tem
uma importância significativa no mercado e na vida dos cidadãos
e dos trabalhadores.
Posteriormente
o Engenheiro Joel Felix, representante da bancada dos trabalhadores
na CTPP (Comissão Tripartite Paritária Permanente), lutador
histórico pelas causas dos trabalhadores, entregou oficialmente
a solicitação à Comissão, o que foi aceita e reconhecida
como importante por todos. Agora vejo a norma sendo finalizada
e posso, mais uma vez, cumprimentar a todos os parceiros
da CTPP que desencadearam juntamente com o MTE este processo.
A construção desta norma tem um significado muito grande
para o setor e para o modelo tripartite que vem sendo implantado
no país.
Precisamos
construir normas e regulamentos que possam contribuir para
a proteção do trabalhador. E precisam também ser normas
que contenham as peculiaridades e as necessidades do setor,
levando em consideração o perfil das empresas daquele setor
e, principalmente, que possam reconhecer os riscos específicos
a que os trabalhadores estão expostos, lembrando não somente
dos riscos inerentes as atividades biológicas mas também
aos riscos psicossociais que esses trabalhadores estão expostos.
Sei que há um grande espaço de se construir uma norma que
venha realmente atender as necessidades de todos os envolvidos
e garantir melhores condições de trabalho melhor qualidade
de vida aos trabalhadores.
Como
o senhor vê a situação do trabalhador da saúde hoje?
Creio
que situação de saúde do trabalhador de hoje está melhor
do que alguns anos atrás, mas ainda temos muito por fazer.
Os acidentes, as doenças e as mortes continuam acontecendo,
mesmo que seja em menor escala, conforme demonstram as estatísticas.
Infelizmente,
com esta nova ordem econômica e com a reestruturação produtiva,
novas doenças vêm aparecendo e muitas delas sem completo
conhecimento e - principalmente - sem reconhecimento por
parte de organismos de governo, empregadores e mesmo alguns
profissionais. Com isso os trabalhadores continuam na busca
de serem diagnosticados e atendidos adequadamente.
Sou otimista que está situação tende a mudar, pois temos
tido oportunidade de observar o grande interesse de vários
setores em procurar melhorarem tanto o conhecimento dos
dados, como da situação que se apresenta. Acredito muito
na participação de todos os atores para encontrar uma saída
mais satisfatória para esta situação
.
O diálogo social é uma das vias que podemos enxergar como
a saída, mas deve ser um diálogo social com responsabilidade
e compromissos reais de buscar a mudança que melhore e não
aquela que continuam fazendo de conta que melhora.
Reconheço
o interesse e o compromisso de muitos empresários e do governo
em procurar mudar isto tudo para melhor, mas alerto que
os trabalhadores e suas representações não devem se acomodar
e achar que somente o interesse e compromisso de poucos
poderão resolver a situação.
Devemos
continuar a agregar mais atores e buscar mais parceiros
para que não ocorra um retrocesso neste processo. A mudança
somente ocorrerá se os trabalhadores continuarem lutando
por isto.
O
senhor acha que outras leis deveriam ser propostas para
proporcionar uma melhor qualidade de vida aos trabalhadores
da saúde?
Com
relação a novas leis, acho que neste momento devemos avaliar
o impacto das leis que já temos. O que elas têm contribuído
para melhorar a segurança e saúde no ambiente de trabalho.
É importante avaliarmos o grau de cumprimento das leis atuais,
por parte dos empregadores, bem como se elas atendem as
necessidades atuais dos novos modelos de produção e serviços.
Desde
a década de noventa o governo, trabalhadores e empregadores
têm se esforçado para atualizar as normas e regulamentos
atualmente vigentes e acredito que este processo deva continuar.
Quem sabe procurar modificar o processo, mas não a filosofia
implantada que é um consenso de todos.
Acredito ainda que a CTPP juntamente com outros atores devem
desenvolver um processo contínuo de avaliação dos resultados
alcançados com as novas regulamentações (se é que tem alcançado)
e principalmente avaliar se as que estão em vigência são
satisfatória para alcançar o resultado que queremos. Este
resultado interessa a todos: trabalhadores, governo e também
aos empregadores.