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Setor hospitalar
é o primeiro em acidentes de trabalho; governo prepara normas específicas
terça-feira, 8 de março
de 2005
por Sabrina Fernandes
e Fernanda Mendes
Primeira atividade
econômica no ranking de ocorrência de acidentes de trabalho –
20,2 mil em 2003, segundo dados do Ministério da Previdência –,
o setor hospitalar é objeto de duas normas governamentais que devem
entrar em vigor até meados do ano. O Ministério do Trabalho e Emprego
(MTE) está finalizando o texto da Norma Regulamentadora n,º 32,
que estabelece regras claras de prevenção de acidentes de trabalho
para o segmento de saúde, que até então não existiam. A norma brasileira
será a primeira do mundo voltada exclusivamente ao setor.
O Conselho Nacional
da Previdência Social também toma providências e prepara a Resolução
1.236 para punir as empresas que apresentarem aumento no número
de acidentes e beneficiar as que reduzirem as ocorrências, com base
na média histórica. Quem for penalizado pagará alíquotas até duas
vezes maiores do que as atuais a título de Seguro de Acidentes de
Trabalho; quem for beneficiado pagará a metade. As medidas do governo
visam a corrigir procedimentos inadequados dos hospitais que expõem
ao risco os funcionários e, como conseqüência, os pacientes. Reutilização
de materiais de uso único (como catéteres cardíacos, pinças de biopsias,
grampeadores) e a manipulação de materiais pérfuro-cortantes (como
agulhas) são alguns deles.
No geral, os riscos
para os profissionais da saúde são os de contaminação biológica
(vírus, bactérias etc.) e química (provenientes da manipulação de
produtos tóxicos). “A maioria dos hospitais ainda está na idade
da pedra em termos de segurança e saúde do trabalho", afirma Mauro
Daffre, presidente da Associação Brasileira para a Prevenção de
Acidentes (ABPA).
Exposição Pesquisa
do Projeto Riscobiológico.Org, entidade apoiada por universidades,
associações e conselhos de profissionais da área e órgãos públicos
de saúde, realizada ano passado com mais de 2.500 profissionais
de saúde de todo o Brasil, mostra números alarmantes: 55,56% deles
já sofreram acidente de trabalho com material biológico. Desse total,
43.75% já fizeram atendimentos ou acompanhamentos de profissionais
de saúde contaminados pelo HIV em decorrência de acidente de trabalho;
somente 31,65% usam o teste rápido anti-HIV no paciente infectado
e no profissional que cuida dele; apenas 55% dos locais de trabalho
têm uma sistemática de prevenção de doenças imunológicas (hepatite
B, sarampo, varíola, coqueluche etc.) entre profissionais de saúde;
64,29% não usam dispositivos intravasculares (agulhas) com mecanismo
de segurança; e 50% dos serviços de saúde não cumprem as normas
e leis ministeriais quanto à saúde e segurança do trabalho.
O problema é que
os hospitais, como muitas empresas de outros setores, enxergam a
questão da segurança como um custo, o que é uma distorção. Daffre
cita como exemplo uma pesquisa genérica feita pelo professor José
Pastore, da Fipe/USP, que mostra que cada R$ 1 investido em segurança
e saúde leva à economia de R$ 4 com gastos em doenças e acidentes
de trabalho. “Além dos aspectos humanos aqui envolvidos, há ainda
a possibilidade de hospitais e toda a rede de intermediários de
serviços de saúde serem processados por pacientes, segundo o Novo
Código Civil”, adverte Daffre.
Exemplo
O Hospital Israelita
Albert Einstein é um exemplo de que prevenção a acidentes vale a
pena. O hospital possui um departamento próprio de segurança do
trabalho – uma exceção não só no setor, como no País – que calcula
mensalmente a relação entre os gastos com prevenção e os custos
do acidente. De acordo com Ederiks Nicolau, coordenador de engenharia
de segurança do trabalho do hospital, o número de acidentes por
funcionário em 2004 caiu 16%. A taxa de acidentes por grupo de cem
funcionários caiu mais da metade desde 1999 até outubro de 2004
(de 0,65 para 0,31), curiosamente em paralelo com o crescimento
do número de funcionários (de 3.106 para 4.388 no período).
Entre os casos mais
preocupantes de acidentes estão a contaminação por hepatite C e
HIV, que não têm cura. Para outras doenças contagiosas, como a hepatite
B, é obrigatória a vacinação para que o funcionário seja admitido
no hospital. Ele explica que o hospital investe pesadamente em equipamentos
modernos de segurança em todas as áreas, com destaque para o centro
cirúrgico e na área de transplantes, que estão entre as de maior
risco.
“Os médicos, enfermeiros
e assistentes são profissionais que em geral esquecem de si mesmos,
porque ficam envolvidos com a situação dos pacientes", diz Nicolau.
Ele enfatiza que, particularmente, durante as tensões das cirurgias
eles podem se acidentar ou criar situações que contaminem a outros,
posteriormente. Por exemplo, uma agulha que caia no chão pode contaminar
o pessoal da limpeza. Com foco nesse problema, o Einstein desenvolveu
uma caixa plástica imantada para ser utilizada em cirurgias, que
reduz a possibilidade de queda das agulhas.
“Entre seminários
e conversas, ficamos sabendo que na Europa se usava algo parecido,
então procuramos no mercado uma solução para adaptar à realidade
brasileira”, conta. Outro ponto de atenção do especialista é o treinamento
contínuo, tanto dos funcionários próprios do hospital como dos terceirizados.
“Como temos muitas equipes médicas de fora do hospital, que vêm
fazer cirurgias aqui, elas são obrigadas a se cadastrar e a passar
por treinamento e reciclagem anual, para se adequar aos procedimentos
do hospital.” Os funcionários, por sua vez, recebem treinamento
de segurança do trabalho antes de assumirem suas funções.
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